Morriam os vivos, viviam os mortos. Fugiam ao tempo, corriam o vento: eu sentia-os, a gélida lâmina que ceifava a cor, a alma. Eu sentia-os: a dura respiração, o sono abrupto. Eu sentia-os; o grito no silêncio, o grito antes do grito, e o grito antes desse. Eram eles, eles que não se veêm, que não se ouvem, que não se sentem. Mas eu sentia-os, a assobiar nomes cujas traduções não existem, a prever um fim antecipado, um fim. Perguntava a esses que já passaram como tinham ido, porque tinham ido. Recebia nada mais do que merecia - angústia e desespero. "Foi a angústia e o desespero que os levou", pensava. "Talvez pela ausência de sentido, ausência de respostas."
Sempre achei que tinha razão. Mas hoje, ainda os sinto. Hoje, ainda não me dizem o que quero saber. Hoje, ainda mortos, não me dizem como viver. Calam o silêncio e veêm-me crescer. Aqueles que já passaram a cinzenta fachada, são aqueles que veêm tudo, mas que não sabem nada.
Rafael Neves
domingo, 25 de janeiro de 2009
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