segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ser poeta

Se ser poeta é não ser
Eu sou o que não seria
Perco o chão num estremecer
Ser poeta é ser um dia

Se poeta, eu já não sou
Imagem o que eu era
Se um dia já passou
Tenho a noite á minha espera

A minha vida é um momento
Que vivo dia á dia
Um verso, um pensamento
Sou poeta do que sentia

Rui Luis

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Ode à Alegria

Alegria!
A pena que tenho em não estar triste.
E ver um surto constante que não existe.
Alegria!
O sabor alegre do que dura pouco.
O vôo leve, o grito rouco.
Alegria!
Que fazes vítimas os que não sabem
da tua manha, e que solenes não fazem
o que a ti te empenha.
Alegria! Oh, alegria de não sorrir!
Alegre em ver-te e não sentir!
E que pena tenho de não fugir.
Alegria!
Doença que me curou.
Fogo que me marcou.
Alegre, pintei o espaço vazio.
Alegre, espantei a cor em mim.
Oh, alegria! Porque não me viu.
Oh alegria, porque és assim?

Rafael Neves

domingo, 25 de janeiro de 2009

Aqueles que já passaram

Morriam os vivos, viviam os mortos. Fugiam ao tempo, corriam o vento: eu sentia-os, a gélida lâmina que ceifava a cor, a alma. Eu sentia-os: a dura respiração, o sono abrupto. Eu sentia-os; o grito no silêncio, o grito antes do grito, e o grito antes desse. Eram eles, eles que não se veêm, que não se ouvem, que não se sentem. Mas eu sentia-os, a assobiar nomes cujas traduções não existem, a prever um fim antecipado, um fim. Perguntava a esses que já passaram como tinham ido, porque tinham ido. Recebia nada mais do que merecia - angústia e desespero. "Foi a angústia e o desespero que os levou", pensava. "Talvez pela ausência de sentido, ausência de respostas."
Sempre achei que tinha razão. Mas hoje, ainda os sinto. Hoje, ainda não me dizem o que quero saber. Hoje, ainda mortos, não me dizem como viver. Calam o silêncio e veêm-me crescer. Aqueles que já passaram a cinzenta fachada, são aqueles que veêm tudo, mas que não sabem nada.

Rafael Neves

sábado, 24 de janeiro de 2009

Taciturno momento

De manha! Minha mente paira sobre a ideia constrangida, pondera afogar as mágoas medíocres em versos apaixonados.
Ah! Ingénua mente de coração mole, a imagem que ela carrega tão sedutoramente já não me atormenta, pois agora sim, tenho pena dela. A tela mágica desenha um corvo branco, único e majestoso como a poesia e o amor.
Tristeza? Pobre desgraçada que flutua na memória da alegria e ao tentar lembrar-se do esquecimento que nunca teve, ela desfalece neste misericordioso dia. A noite seca de meus olhos chuvosos, abafam o sol e sua luz que outrora me iluminaram.
Estais triste ou feliz? Pergunta minha mente enamorada de uma forma sarcástica. A resposta saberás no limiar da grandeza, onde filosofia em verso que incitarei na única e futura noite vivida por mim. Encontro-me taciturno, pois não te carrego, estou feliz na infelicidade de um livre fardo que não me merece, esse fardo?
Minhas lágrimas petrificadas e guardadas numa pirâmide que me imortaliza.
Honrosa princesa do lago, amar-te-ei como esperais, sois vós que me atormentais neste esplendor amoroso? Não sei quem sois, mas de certo que és quem sonhei.
Ao matares-me em teus cabelos, dignos de uma ninfa da floresta, meus olhos circundantes fitam a magia dos teus.
Ao enfeitiçares-me, torno-me semelhante a minhas lágrimas e estático, eu jazo neste momento solene. A rosa negra que transportas tão delicadamente, já me caracterizou num amor anterior em que morri. Voltei! Voltei à realidade, aqui sim existem metáforas verdadeiras, a vida é um drama tranquilizante, acolhe-me e traça-me um destino sonhado, onde poetas voam sobre adegas e casam com sereias míticas e esbeltas.
Grito ao mundo desesperançado e louco, que transporta quem eu sinto:
- Fugi do vosso amor, não correrei ao encontro dele, pois onde o mesmo se encontra. Incestos são praticados.
Quero-te e desprezo-te amor que não amo. Calo-me!... e de repente a resposta desse amor, provem de um vento desordenado que entra pela minha janela.
A musa que quero voa com borboletas durante um mês infinito, e eu? Oh pobre poeta escasso de inspiração, a tal? Exilou-se em meu leito de versos, deixando à minha vista uma nova tela, onde se encontra desenhado um corvo preto, que espicaçou esta prosa inacabada e doentia.
Já não sinto a falta do que não perdi, apenas nunca tive o que jamais esqueci. Desejo a comoção e na vida não a tenho, minha janela, em meu auxílio chama-me, pereço com ela vastos minutos onde um monólogo surge.
No fim desta manhã momentânea, eu apercebi-me:
Este amor é desejado e não necessário de momento, eu não estou a viver a realidade neste impasse triste, eu vivo um sonho oportuno em que estou prestes a acordar.
Num momento, num sonho, aí sim taciturnamente saberei quem sou, eu não sou eu, serei o sonho que alguém sonhou.

Rui Luis

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A vida queima

Ri o poeta inspirado na tortura, num pestanejar o mundo arde a dançar com demónios, cisnes negros voam num desfile de chamas.
o brilho cega o magnata e seus néscios e a utopia do homem agora é viver, referindo-me á sobrevivência como uma realidade, mas pergunto-me, quantas pessoas vivem sabendo que estão vivas?
Ainda não me achei neste inferno ensopado em ouro negro, insólita e indignada natureza, pobre mãe de filhos mortos.
Queimei-me, porque vivo?

O mundo pede boleia
Ao universo paralelo
Este palco sem plateia
O futuro do que era belo

A esperança fala comigo
Pedindo ajuda á poesia
Oh! Verso meu amigo
O mundo é de quem o cria

Rui Luis

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Identifica-te

Vejo a génese do pensamento como um fim a não atingir nada, ou seja, para quê pensar se não sento?
Visto de outra forma, para quê idealizar, se a minha ideia diverge das outras? É como se o sentir fosse a única coisa a que eu posso chamar minha e tua, pensar é de tal forma relativo, pois o amor é que é sentido por todos, mas de formas diferentes, enquanto o meu pensar pode ser o ideal de alguém e ao mesmo tempo outra pessoa ter esses pensamentos também, daí a especialidade do sentir, pois ninguém sente igual a ti.
Outrora, se eu sinto? Racionalizo, mas nada me contrapõe se de facto o meu sentir é errado, deixa-me explicar, todo o sentir é meu e o pensar foi enraizado na minha mente.
O que me leva a concluir esta génese ou tentativa da mesma. Posso me pôr aqui a escrever o que penso, mas não, concluo ao dizer que toda a minha alma rege-se de um ideal, que ideal? o meu...
Toda a poesia que sinto é pensada, mas de forma a ficar perfeita para quem a lê, se ao leres isto não te identificares, compreendo, mas reclamo à tua mente ignóbil:
-Perdoa este pensador que não sente!
Toda a forma de poesia é bela, desde que seja sentida e como consequente verdadeira, todo este contracenso morre na ideia de não ser poeta.
Eu não sou poeta, sou eu, a poesia é o que sinto e tudo o que foi pensado já não passa de uma ideia a vaguear nas folhas sentidas.
Percebe-me!
Sente-me e não me penses.



Rui Luis